ESTUDO REVELA COMO ABUSADORES SEXUAIS MANIPULAM E SILENCIAM ADOLESCENTES NA INTERNET

terça-feira, 19 de maio de 2026

Uma pesquisa divulgada durante o Maio Laranja revelou como autores de crimes sexuais utilizam estratégias de manipulação emocional para abusar e silenciar adolescentes no ambiente virtual. O levantamento aponta que a violência sexual on-line está associada a fatores emocionais, familiares e sociais que aumentam a vulnerabilidade das vítimas.

O estudo faz parte da terceira fase da pesquisa “Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet”, desenvolvida pelo ChildFund Brasil em parceria com o Instituto Tecnologia e Dignidade Humana. A investigação ouviu adolescentes vítimas de abuso e condenados por crimes sexuais que cumprem pena em regime fechado, buscando compreender os métodos utilizados pelos agressores, os impactos da violência e as dificuldades enfrentadas pelas vítimas para denunciar os casos.

Segundo o levantamento, muitos adolescentes não percebem imediatamente que estão sendo vítimas de abuso, especialmente quando a violência ocorre de forma gradual e acompanhada de manipulação emocional. Os relatos mostram que abusadores frequentemente assumem o papel de pessoas acolhedoras, preenchendo espaços de escuta e atenção que muitas vezes faltam no ambiente familiar. A partir disso, criam vínculos afetivos que evoluem para controle psicológico e coerção.

Vergonha, culpa e medo do julgamento familiar aparecem entre os principais fatores que levam vítimas a permanecerem em silêncio. A pesquisa também aponta que a ausência de diálogo sobre sexualidade dentro de casa dificulta ainda mais as denúncias.

Dados das etapas anteriores do estudo mostram que 54% dos adolescentes entrevistados afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência sexual na internet, o que representa cerca de 9,2 milhões de jovens brasileiros. Além disso, 94% disseram não saber como agir ou denunciar situações de risco.

O levantamento revela ainda que meninas apresentam risco aproximadamente 8% maior de sofrer violência sexual on-line em comparação aos meninos, embora o problema atinja ambos os sexos.

PERFIL DOS CONDENADOS

As entrevistas realizadas com condenados por crimes sexuais identificaram padrões recorrentes nas trajetórias dos abusadores. Entre os fatores citados estão exposição precoce à pornografia — muitas vezes antes dos 10 anos de idade —, falta de diálogo familiar sobre sexualidade, histórico de violência doméstica e uso intenso da internet sem supervisão.

Os entrevistados também demonstraram distorções sobre consentimento e, em muitos casos, minimizaram a gravidade dos crimes cometidos.

De acordo com Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund Brasil, a pesquisa amplia o debate sobre as origens desse tipo de comportamento criminoso.

O estudo identificou ainda que jogos on-line, redes sociais e aplicativos de mensagens são frequentemente utilizados como “pontes de confiança” pelos agressores. Em muitos casos, o contato começa em plataformas de jogos, migra para aplicativos como Discord e termina em serviços de mensagens como WhatsApp e Telegram, utilizados para conversas privadas e troca de conteúdo íntimo.

Outro ponto considerado crítico pela pesquisa é o período da madrugada, quando há menor supervisão familiar e maior sensação de isolamento, cenário explorado pelos abusadores para fortalecer o controle sobre as vítimas.

Apesar de demonstrarem algum nível de arrependimento, os condenados entrevistados reconheceram os impactos de seus atos principalmente após a punição e o encarceramento, e não antes da prática dos crimes.

PESQUISA NACIONAL

O mapeamento foi realizado ao longo de três anos e reuniu dados quantitativos e qualitativos. Na primeira etapa, foram entrevistados 8.436 adolescentes entre 13 e 18 anos em todo o país. Já na segunda fase, grupos focais com estudantes de escolas públicas e privadas de Minas Gerais e Ceará aprofundaram a percepção dos jovens sobre riscos, insegurança e estratégias de proteção no ambiente digital.

Segundo os pesquisadores, o estudo reforça a necessidade de ações integradas entre poder público, sociedade civil e empresas de tecnologia para combater a violência sexual on-line contra crianças e adolescentes.

(Com informações do JC)

Postado Por: Paulo Fernando